Tuesday, April 11, 2006

REVIVER BAHIA


O chique era morar na Rua da Bahia! Rica em história e importante culturalmente, a rua da Bahia teve sua época de glamour e brilhantismo. A sua história é também a história de homens empreendedores, profissionais liberais e comerciantes, muitos deles pioneiros na cidade, que ensaiavam seus passos nos primeiros trinta anos de vida da capital. “Uma rua que já nasceu boêmia”. Assim definiu o presidente da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte, Belotur, Fernando Lana, ao falar sobre esse corredor cultural.

Na década de cinqüenta, a Gruta Metrópole e o cine de mesmo nome embalaram, com alto teor etílico, os sonhos dos intelectuais mineiros. Sempre freqüentada por jornalistas, escritores, atores de teatro, estudantes de direito e intelectuais da época, a rua era palco de manifestações ideológicas. Era lá que muitos ensaiavam seus primeiros passos na militância política .
Encontros e desencontros agitavam as noites boêmias, e era vivido o frenesi da época dos namoros nas calçadas. Era o local preferido daqueles, que futuramente, seriam personalidades literárias e artísticas de capital Mineira. Pedro Paulo Cava, fundador e diretor do Teatro da Cidade, um dos primeiros teatros instalados na rua da Bahia, conta um pouco de como era a boemia daquela época. “A boemia que a gente curtia, era a boemia do papo, da poesia, do encantamento, do apaixonar na madrugada, dos encontros e desencontros, se não, não teria graça. Já imaginou esta boemia sem o desencontro?” Hoje, segundo Pedro Cava, a boemia de Belo Horizonte acabou. “Por causa da violência, os bares e restaurantes estão fechando mais cedo, e apesar de ainda existir a Cantina do Lucas, Belo Horizonte está triste porque acabou essa vida noturna.”

Nos anos 60, surgiu o edifício Arcângelo Maleta, que com seus bares, restaurantes e livrarias, reacendeu a vocação cultural e boêmia do local. Em pouco tempo, o edifício Maleta virou ponto de encontro dos boêmios e intelectuais da época. Era uma das construções mais modernas que havia, pessoas formavam filas para conhecer as escadas rolantes. Junto com o Maleta, surge a Cantina do Lucas, um autêntico representante da boemia, local freqüentado por formadores de opinião e contestadores e que, até hoje, é referência cultural para a nova geração. A rua da Bahia servia e serve até hoje de inspiração. Foram histórias que renderam diversas publicações.

Um retrato dependurado na parede

O jornalista Luiz Otávio Horta, Tatá, como é mais conhecido, diz que a rua há muito perdeu o seu viés cultural. Para ele, atualmente, “a rua da Bahia é como um retrato dependurado na parede, é simplesmente mais uma via condutora de tráfego. Até a década de 70, foi um ponto de fundamental importância para a história cultural e política de Belo Horizonte”. Tatá viveu e participou ativamente daquela época e resolveu juntar as histórias que viu em um livro.”A Idéia de escrever um livro sobre a rua da Bahia foi minha e da também jornalista Brenda Silveira”. Contando então com o financiamento da Secretaria Municipal de Cultura e do empresário Edmar Roque, dono da Cantina do Lucas, que na época do lançamento estava completando 40 anos, surgiu o livro, “Histórias da Rua da Bahia e Cantina do Lucas”. “O Edmar nos convidou para fazer um livro sobre a Cantina, fomos mais além, incluímos a rua da Bahia e um pouco da história de Belo Horizonte”. Luiz Otávio acrescenta que o livro é uma boa fonte de pesquisa para estudantes e profissionais de arquitetura e jornalismo. Ele relata ainda, que levantar as fontes foi o grande desafio ao escreve-lo. “Muitas pessoas, freqüentadoras da Cantina do Lucas já haviam morrido, assassinadas ou de cirrose hepática”, brinca.

Rua da Bahia Viva

Em 1992, um grupo de jornalistas, intelectuais, artistas e empresários, incentivados por Pedro Paulo Cava, considerando a importância histórica e cultural da rua da Bahia, dão largada para a elaboração de um projeto de revitalização de toda a sua extensão, com o nome de “Rua da Bahia Viva”, que previa um conjunto de ações que devolvesse à movimentação cultural que ela apresentou desde a construção da cidade. “Quando inaugurei o Teatro da Cidade, em 1990, resolvemos fazer o projeto. A idéia, era transformar cada ponto da rua que foi tradição em espaço cultural, a exemplo da Praça do Teatro,” explica Pedro Paulo. Políticas de ocupação, recuperação de equipamentos e espaços públicos, segurança, lazer e entretenimento, que não deixassem seu passado adormecido no imaginário popular.

A iniciativa logo contou com o apoio da prefeitura. Em 1998, a Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou o Projeto Bahia Viva, através da Lei 7620/98. A partir daí, foi elaborado um detalhado levantamento histórico e arquitetônico. (ver mapa). O Projeto previa, entre outras coisas, transformar trechos da rua da Bahia em uma rua 24 horas, aproveitando a vocação boêmia que marcou a história deste pedaço de chão. Mas, infelizmente, sete anos depois, pouco foi feito. Por cerca de dois anos, foram produzidos apenas folhetos como o nome de “Calendário Cultural”, que traziam a programação da rua e informações sobre lugares e personagens. A arquiteta do projeto, Liana Valle, disse que o Bahia Viva era muito audacioso para a época e que uma seqüência de fatores influenciaram para que ele não se desenvolvesse, como falta de verbas e de estrutura e mudanças de governo. Assim justificou também o Administrador da regional centro-sul Fernando Cabral, expondo que há uma distância enorme entre desenvolver um projeto e realizá-lo. Segundo ele, não depende só dos governos a realização dos grandes projetos e, muitas vezes, por falta de parcerias alguns deles não se concretizam. “Esta frustração não se restringe apenas à rua da Bahia, mas está generalizada no centro da cidade, entre o que nós gostaríamos de fazer e o que é possível fazer”. Acrescenta ainda que talvez tenha faltado uma integração entre a regional centro-sul e a Secretaria Municipal de Cultura da época para colocá-lo em prática ou pelo menos, terem avançado um pouco no que o projeto propõe, assim como a falta de interesse dos empresários mineiros.

O presidente da Fundação Municipal de Cultura, Rodrigo Barroso, também falou sobre o projeto. Segundo ele, a rua da Bahia tem uma indiscutível importância para a cidade. Acredita que a revitalização é necessária, mas afirma que seria melhor abordar trechos distintos da rua. “Um projeto da amplitude como esse não é realizado em 2 ou 3 anos. Devemos encarar os problemas, mas não em um único projeto, e sim em vários que viabilize até, quem sabe, transformá-la em 24 horas”. Por enquanto, os planos da prefeitura são de revitalizar fachadas e calçadas.

A mudança nesse saudoso eixo cultural e boêmio é também proveniente da própria evolução da cidade e das pessoas, conclui Rodrigo Barroso. “A cidade cresce e se transforma e sofre com a ação do tempo. Mas certamente, dá pra resgatar um pouco do simbolismo da rua, levando em consideração que a capital aponta para o novo e pro moderno e devemos respeitar essas mudanças”.

Trata-se de um desafio tentar reviver um ambiente que foi único e de uma época que não volta mais. Talvez a Rua da Bahia não tenha perdido o charme e a importância de outrora, e sim tenha sido esquecida. Quem passeia por lá, nos dias de hoje, pode perceber a tristeza de uma rua que foi protagonista da história alegre de Belo Horizonte e foi palco de uma importante fase da capital mineira. Pensar que ela voltará a ser alegre pode ser utópico, mas é preciso que os olhos se voltem novamente pra esse lugar de tantas lembranças e que não a deixem morrer, pois assim estaremos esquecendo de uma parte significativa da história de Belo Horizonte e da cultura que surgiu dali.

2 Comments:

At 8:03 PM, Blogger Cliv said...

Olá! Desculpe o inconveniente. Tenho feito um trabalho de pesquisa sobre a Lagoinha e procuro o livro da Brenda Silveira que faz parte da coleção "Trilhas Urbanas" "Casas de família e casas de prostituição - os tempos heróicos da Lagoinha". Não tenho conseguido achar esse livro, e pude ver por essa reportagem que tens contato com a mesma. Poderia por gentileza me passar o e-mail dela? ou algum contato direto, ou um local para eu adquirir este livro? Agradeço muito a colaboração. Obrigado
Cliver
clivhono@hotmail.com

 
At 8:04 PM, Blogger Cliv said...

Olá! Desculpe o inconveniente. Tenho feito um trabalho de pesquisa sobre a Lagoinha e procuro o livro da Brenda Silveira que faz parte da coleção "Trilhas Urbanas" "Casas de família e casas de prostituição - os tempos heróicos da Lagoinha". Não tenho conseguido achar esse livro, e pude ver por essa reportagem que tens contato com a mesma. Poderia por gentileza me passar o e-mail dela? ou algum contato direto, ou um local para eu adquirir este livro? Agradeço muito a colaboração. Obrigado
Cliver
clivhono@hotmail.com

 

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